Nossa função enquanto pais não é evitar a frustração, mas torná-la tolerável

  

A maioria dos pais e mães de hoje viveu a infância sob regras claras e severas. Ainda lembramos do quanto era difícil engolir aquela sopa de textura desagradável ou submeter-nos àquela professora autoritária. Ainda nos ressentimos das longas viagens que nossos pais fizeram, sem sequer nos preparar ou telefonar para dar notícias e aliviar as saudades.
Queremos poupar nossos filhos de se sentirem tão vulneráveis, dependentes e incapazes, como lembramos que um dia nos sentimos. Nos esforçamos para que nossos filhos não sintam por nós a raiva que sentimos dos nossos pais um dia.

Somos bombardeados por informações sobre criação com apego, cama compartilhada, amamentação prolongada, desmame natural, educação construtivista. Também temos acesso a pesquisas, fórmulas mágicas para fazer a criança dormir melhor, tirar a fralda mais rápido, comer quantidades e qualidades adequadas de comida nos intervalos certos, estratégias e medicações para mudanças mágicas de comportamento.

Não raro nos vemos mudando rapidamente da posição de pais amorosos e disponíveis para carrascos intolerantes e exigentes.

Será que estamos fazendo o melhor para nossos filhos?

Nossa função enquanto pais não é evitar a frustração, mas torná-la tolerável. A frustração é inevitável. Mesmo dentro de casa, é impossível sustentar o tempo todo condições ideais, sob o ponto de vista da criança. Somos responsáveis por sua segurança e saúde e satisfazer todas as suas vontades está simplesmente fora de questão. Se considerarmos que esta criança terá que viver em sociedade, fica evidente o desfavor que faríamos ao dar-lhe a falsa idéia de que viver exclusivamente sob o princípio do prazer é possível.

Podemos, sim, ser gentis com nossos filhos, considerar suas preferências e necessidades, mas lembrando que precisamos conduzi-los, de forma constante e coerente, para uma vida real produtiva e feliz.

O maior desafio é identificar as potências, as necessidades e limitações de cada criança e ajudá-la a superar suas reais dificuldades, não supondo sofrimento onde ele não existe. Superar um obstáculo pode trazer uma sensação de real felicidade, diferente do mundo sem graça e protegido do alto da torre de um castelo, onde muitas vezes aprisionamos nossos filhos, sob o pretexto de evitar sofrimento.

É claro que ninguém erra de propósito na relação com os filhos e, às vezes, só nos damos conta de que erramos a dose quando algumas consequências já são visíveis, seja na nossa dificuldade de conciliar as vontades dos filhos com as nossas necessidades, seja quando a criança passa a apresentar alguma dificuldade de desenvolvimento ou adaptação ao mundo lá fora.

Aprender a suportar a frustração que causamos em nossos filhos talvez seja o primeiro passo para ensiná-los a lidar com as próprias.

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